Rota Cine MS Povos Tradicionais estreia na Comunidade Tia Eva e leva cinema, memória e pertencimento ao público quilombola

Público de costas assistindo a um filme em uma grande tela de projeção em um galpão amplo à noite. A tela exibe três mulheres idosas com blusas vermelhas idênticas, sentadas lado a lado. A iluminação do local é baixa, focada no telão.
  • Publicado em 18 maio 2026 • por Paula Maciulevicius de Oliveira Brasil •

  • A primeira edição do Rota Cine MS Povos Tradicionais transformou o Centro Comunitário da Tia Eva em um encontro de memória, cultura e afeto. Logo após o tradicional terço realizado durante o mês de maio em celebração a São Benedito, moradores se reuniram quinta-feira (14) para viver uma experiência inédita: uma sessão de cinema dentro da própria comunidade.

    Com pipoca e refrigerante, a ação exibiu o curta sul-mato-grossense “As Marias”, obra que retrata a vida e o envelhecimento de três irmãs trigêmeas. O projeto é realizado em parceria entre a Secretaria de Estado da Cidadania e a Fundação de Cultura de Mato Grosso do Sul, levando produções audiovisuais para comunidades tradicionais do Estado.

    Vista traseira de um público sentado em cadeiras pretas assistindo a uma projeção em um telão branco, dentro de um galpão com iluminação suave. A tela mostra uma imagem aérea de um rio cercado por vegetação. Duas pessoas da organização observam em pé ao fundo da sala.
    Primeira exibição ocorreu na comunidade Tia Eva. (Foto: Paula Maciulevicius/SEC)

    A proposta de levar o cinema até os territórios nasceu justamente da necessidade de democratizar o acesso à cultura. Segundo o subsecretário de Políticas Públicas para Promoção da Igualdade Racial, Deividson Silva, a ideia inicial previa exibições apenas em espaços centrais, o que dificultaria a participação das comunidades.

    “A partir de uma provocação feita dentro da própria comunidade, pensamos: por que não fazer o equipamento chegar até as pessoas? Muitas vezes a locomoção é difícil, especialmente para quem vive em áreas mais afastadas. Quando falamos de política pública, é importante que ela vá até a comunidade, e não que a comunidade precise procurar por ela”, afirmou.

    Cinema como encontro de gerações

    A sessão emocionou moradores da comunidade, especialmente pessoas idosas, que compartilharam memórias e experiências relacionadas ao cinema e à vida comunitária.

    Um homem negro usando chapéu e óculos fala em primeiro plano, segurando um copo plástico. Ao lado dele, duas crianças comem pipoca, uma delas vestindo uma camiseta do Capitão América. Outras pessoas estão sentadas em cadeiras ao redor, assistindo e conversando no interior de um amplo galpão.
    Seu Borginho descrevendo o que viveu durante sessão, e o quanto projeto é importante para democratizar o acesso ao cinema. (Foto: Paula Maciulevicius/SEC)

    Aos 71 anos, o aposentado Antônio Borges, conhecido como Seu Borginho, contou que não ia ao cinema havia cerca de dez anos. “Tem gente aqui que pode ter certeza que nunca foi ao cinema. E hoje assistiu um filme, teve a oportunidade de apreciar o cinema, comer uma pipoca. Isso é muito importante. Muitas crianças daqui quase não saem da comunidade. Então trazer o filme até aqui mostra outro lado da cultura, que não pode acabar”, afirmou.

    Moradora da comunidade desde 2002, Irene Borges revelou que nunca tinha entrado em uma sala de cinema. “Se fosse para a gente ir lá assistir, talvez a gente não fosse. Mas aqui, perto da casa da gente, ficou fácil. Nunca fui ao cinema, nunca tinha visto uma tela grande assim, fiquei emocionada”, contou.

    Reflexão sobre ancestralidade e envelhecimento

    Vista ampla do galpão onde o homem de camiseta rosa e a mulher de blusa vinho conversam em pé com a plateia sentada em semicírculo. No centro do espaço, há uma mesa amarela com um notebook e um projetor. O público, composto por pessoas de várias idades, acompanha a apresentação com atenção.
    Depois de curta-metragem, Rota Cine MS Povos Tradicionais vai trabalhar temas como envelhecimento, ancestralidade e memória. (Foto: Paula Maciulevicius/SEC)

    Aos moldes do Cine Maturidade, projeto da Subsecretaria de Políticas Públicas para Pessoa Idosa que desde 2023 trabalha o diálogo e a reflexão através do audiovisual, após a exibição, moradores participaram de uma roda de conversa sobre o documentário, conduzido pela subsecretária da Pessoa Idosa, Larissa Paraguassu.

    Seu Borginho relacionou a história das personagens às transformações vividas pelas famílias ao longo do tempo. “A formação da família era totalmente diferente do que acontece hoje. Tudo tinha seu tempo. O respeito era muito grande. A palavra das pessoas antigas valia muito. Isso faz a gente pensar sobre ancestralidade e sobre valorizar aquilo que ficou”, refletiu.

    Mulher negra sorri de perfil, sentada em uma cadeira. Ela usa uma jaqueta preta sobre blusa branca e calça jeans. Ao fundo, há uma mesa com toalha vermelha e detalhes em crochê branco, onde estão posicionadas imagens religiosas, incluindo uma estátua de São Benedito e uma de Nossa Senhora Aparecida. A parede ao fundo exibe uma "Galeria de Fotos - Ex-Presidentes".
    Liderança na comunidade, Vânia Baptista Duarte participou das reflexões na roda de conversa pós-sessão. (Foto: Paula Maciulevicius/SEC)

    A historiadora e liderança da comunidade, Vânia Lúcia Baptista Duarte, descendente de Tia Eva, destacou como o filme dialoga com as memórias afetivas e com a própria realidade quilombola.

    “Algumas coisas permanecem. Quando toca aquela música sertaneja, muitos de nós lembramos das nossas histórias. O filme fala dessa irmandade, dessas mulheres que envelheceram juntas, com alegrias e dores. Mesmo falando das dificuldades, é visível a alegria delas em poder contar a própria história e serem ouvidas”, afirmou.

    Para a subsecretária da Pessoa Idosa, Larissa Paraguassu, o Rota Cine MS Povos Tradicionais impacta comunidades a partir do diálogo. “Após cada sessão, vamos compartilhando impressões sobre família, envelhecimento, respeito e ancestralidade, conduzindo o diálogo com escuta e participação de todos”, pontua.

    O Rota Cine MS Povos Tradicionais seguirá com novas sessões em comunidades quilombolas e indígenas de Mato Grosso do Sul. Na agenda, os próximos locais serão:

    Rota Cine MS – Povos Tradicionais
    📍 Comunidade Quilombola São João Batista
    📅 21 de maio de 2026
    ⏰ 19h30

    Rota Cine MS – Povos Tradicionais
    📍 Associação da Comunidade Negra Rural Quilombola Chácara Buriti (Salão do Janilson)
    📅 22 de maio de 2026
    ⏰ 18h

    Paula Maciulevicius, da Comunicação da Cidadania

    Categorias :

    Cidadania, Pessoa Idosa, Racial

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