MS avança no enfrentamento ao racismo com entrega de instrumento técnico construído em rede

Visão lateral de uma mesa de debate. Cinco pessoas estão sentadas em cadeiras de escritório pretas dispostas em semicírculo. Em destaque, no lado esquerdo, uma mulher negra com vestes tradicionais brancas e turbante. Ao lado dela, uma mulher de blusa azul fala ao microfone. No centro, uma mulher com trajes tradicionais ciganos em tons de vermelho e dourado. Ao fundo, as bandeiras do Brasil e do Mato Grosso do Sul.
  • Publicado em 31 mar 2026 • por Paula Maciulevicius de Oliveira Brasil •

  • Após quase um ano de trabalho articulado entre instituições públicas e sociedade civil, o GTI (Grupo de Trabalho Interinstitucional) FortaleSer, da Rede de Enfrentamento ao Racismo, apresentou como resultado das atividades o Instrumento Técnico da Rede de Enfrentamento ao Racismo e à Intolerância Religiosa. O material foi construído ao longo de 2025 com o objetivo de orientar, de forma prática, a atuação do Estado e dos municípios diante de situações de discriminação racial e religiosa.

    O documento foi apresentado no painel que encerrou a programação dos 21 Dias de Ativismo pelo Enfrentamento à Intolerância Religiosa, realizado no dia 20 de março, na SEC (Secretaria de Estado da Cidadania), marcando um momento simbólico de síntese e compromisso com o fortalecimento das políticas públicas na área.

    A imagem mostra cinco pessoas de pé em um auditório, posicionadas em frente a um grande telão. No telão, lê-se "MS SEM RACISMO" com a ilustração do perfil de uma mulher negra. Da esquerda para a direita: uma mulher negra com vestido longo estampado e óculos; uma mulher falando ao microfone, vestindo blusa rosa e calça azul; uma mulher negra de vestido branco; um homem negro de terno cinza e um homem de camisa branca e calça clara. O ambiente é formal e iluminado.
    Integrantes do GTI, Irinéia Cesário, Giselle dos Santos, Myla Meneses e Fabrício Dias, junto ao subsecretário de Políticas Públicas para Promoção da Igualdade Racial, Deividson Silva. (Foto: Matheus Carvalho/SEC)

    Instituído no primeiro semestre de 2025, o GTI é coordenado pela Subsecretaria de Políticas Públicas para a Promoção da Igualdade Racial, vinculada à SEC, e tem como missão prevenir, enfrentar e erradicar todas as formas de racismo, discriminação racial, xenofobia e intolerância correlata, promovendo a igualdade de direitos e oportunidades para todas as populações étnico-raciais.

    A iniciativa reúne representantes de diversas secretarias estaduais, como Saúde (SES), Educação (SED) e Justiça e Segurança Pública (Sejusp), além do Ministério Público de Mato Grosso do Sul e de instituições de ensino superior, como a Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul (UEMS). Também integram a rede grupos e organizações que representam os movimentos negros no Estado, ampliando o diálogo e a construção coletiva das ações.

    Uma foto tirada de um ângulo alto e amplo, mostrando o palco e a plateia. No palco, os palestrantes estão sentados em semicírculo. À frente deles, no chão, há um trilho de tecido estampado. A plateia ocupa cadeiras azuis e é composta por um grupo diverso de pessoas que acompanham o evento atentamente. As paredes do auditório são brancas e o teto possui iluminação embutida.
    Apresentação foi realizada durante painel que encerrou a campanha 21 dias de Ativismo. (Foto: Matheus Carvalho/SEC)

    Guia para atuação integrada

    Com 37 páginas, o instrumento técnico funciona como um guia prático para gestores públicos, profissionais da rede de proteção e representantes da sociedade civil. O documento apresenta diretrizes para organizar e fortalecer a Rede de Enfrentamento ao Racismo e à Intolerância Religiosa em Mato Grosso do Sul, com orientações que vão desde o acolhimento das vítimas até o encaminhamento e o monitoramento dos casos.

    Entre os principais pontos, o material reúne a finalidade da rede, seus princípios e fundamentos legais, além de conceitos essenciais para a compreensão do racismo e da intolerância religiosa. Também detalha a estrutura de atuação integrada entre áreas como saúde, educação, assistência social, segurança pública e sistema de justiça.

    O documento traz ainda orientações práticas para atuação nos territórios, fluxos de atendimento diante de denúncias e recomendações para que os municípios implementem ou aprimorem suas redes locais, respeitando as diferentes realidades.

    Construção coletiva e atuação na ponta

    Plano médio de um homem de pele parda, com bigode e cavanhaque, falando ao microfone. Ele veste uma camisa branca de botões e usa um colar dourado grosso. Em suas mãos, segura um livreto azul da "Secretaria de Estado da Cidadania". Ao fundo, parte do telão colorido com a campanha antirracista está visível, mas levemente desfocada.
    Subsecretário ressaltou importância de documento na sistematização do trabalho em todas as frentes. (Foto: Matheus Carvalho/SEC)

    Durante a apresentação do guia, o subsecretário de Políticas Públicas para Promoção da Igualdade Racial, Deividson Silva, destacou o papel da Rede Fortalecer, formada por instituições governamentais e não governamentais, como um dos principais desdobramentos do programa “MS sem Racismo”.

    “Nesse quase um ano de atuação, a rede chegou aos municípios, à ponta, enfrentando o racismo de forma concreta. Um dos grandes desafios era construir esse instrumento técnico, que é uma cartilha, um manual que orienta a sociedade sobre a política de combate ao racismo e à intolerância religiosa”, explicou.

    Segundo ele, o material sistematiza a atuação das diferentes áreas, apresenta a classificação das formas de racismo, reúne dispositivos legais, tipos de violência e indica os canais de denúncia disponíveis para a população.

    Avanços institucionais e mudança de cultura

    Colaborador do GTI, o delegado da Polícia Civil, Fabrício Dias dos Santos, ressaltou que o trabalho em rede tem promovido mudanças importantes dentro das instituições, especialmente na área da segurança pública.

    “Hoje já adequamos a linguagem: não falamos mais apenas em injúria racial, mas em racismo na modalidade injúria racial. Pode parecer pouco, mas isso tem um impacto muito grande na sociedade”, afirmou.

    Ele também destacou a criação de protocolos de atendimento voltados à população negra, indígena e cigana, além da inclusão de uma disciplina específica sobre enfrentamento ao racismo e à intolerância religiosa na formação de novos policiais civis. “É uma mudança de postura institucional, que mostra que a Polícia Civil está voltando os olhos para essa questão”, completou.

    Representando a SED (Secretaria de Estado de Educação) no GTI, a vice-presidente do Cedine (Conselho Estadual dos Direitos do Negro), Myla Meneses, enfatizou que a atuação em rede fortalece as ações dentro das escolas.

    “Hoje já conseguimos diferenciar, inclusive nos sistemas de denúncia, que racismo não é bullying. São coisas distintas, e isso já está disciplinado. Também estamos construindo um protocolo antirracista para as escolas e uma campanha de identidade étnico-racial, para que os estudantes possam se reconhecer e, a partir disso, construir um ambiente com menos racismo e mais respeito”, afirmou.

    Plano médio de uma mulher negra sorridente, com cabelos crespos volumosos e óculos de grau. Ela segura um microfone com a mão direita e gesticula levemente com a esquerda. Veste um vestido estampado em tons de marrom, azul e bege. No peito, carrega um crachá de identificação. Ao fundo, o painel vibrante "MS SEM RACISMO" ilumina a cena.
    Técnica da Subsecretaria, Irinéia resume que Programa MS sem Racismo reúne luta histórica. (Foto: Matheus Carvalho/SEC)

    No âmbito municipal, a representante do Núcleo de Promoção da Igualdade Racial de Campo Grande, Giselle dos Santos, destacou que o desafio é ampliar o debate para além das datas simbólicas.

    “Estamos trabalhando para que o racismo seja discutido no dia a dia, dentro das secretarias, com capacitação de servidores e ações contínuas. A participação na rede tem fortalecido esse processo e ajudado o município a avançar”, disse.

    Política estruturada e olhar para os territórios

    Encerrando a apresentação, a técnica da Subsecretaria de Políticas Públicas para a Promoção da Igualdade Racial, Irineia Cesário, reforçou que o programa “MS sem Racismo” integra uma série de iniciativas estruturantes.

    “Esse programa reúne uma luta histórica. E, junto com ele, temos o plano de ação antirracista, que vai efetivar essas políticas. Nosso desafio é ampliar esse olhar para diferentes populações, incluindo comunidades quilombolas, além da população urbana”, destacou.

    Para visualizar o guia completo, clique aqui.

    Paula Maciulevicius, da Comunicação da Cidadania
    Foto de capa: Matheus Carvalho/SEC

    Categorias :

    Cidadania, Racial

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